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Miserere mei Deus - Notas ao Programa

Um dos aspectos mais ricos e fascinantes da música sacra na Europa das primeiras décadas do século XVIII
decorre da simultaneidade, à primeira vista paradoxal, entre a continuidade e a renovação dos repertórios. Com efeito, pela natureza eminentemente pragmática e funcional de um repertório vivo, subjacente às mais variadas cerimónias litúrgicas que exigia, em especial nos principais centros, uma dedicação e um cuidado intensos e continuados, era inevitável que os seus compositores e mestres de capela fossem agentes dos desenvolvimentos musicais do seu tempo - frequentemente com uma exploração incipiente nos géneros mais profanos – introduzindo-os e adequando-os de modo gradual às necessidades litúrgicas a suprir.

 

Tradicionalmente, a Musicologia Histórica tendia a enfatizar estes fenómenos de inovação de repertórios, quase transmitindo a ideia - mesmo que inadvertidamente - de que as novidades substituiriam, de modo quase imediato e inapelável, as obras dos períodos anteriores. No entanto, as décadas mais recentes têm testemunhado uma profunda revisão daquela ideia, decorrente de estudos cada vez mais sistemáticos e consistentes das próprias fontes musicais setecentistas dos grandes centros litúrgico-musicais do continente europeu. Destes estudos, resulta claro por meio de incontáveis exemplos que, a par da inovação acima aludida, o repertório sacro vivo consistia, em grande medida, no aproveitamento, adaptação e/ou
inspiração de obras compostas várias décadas (ou mesmo séculos) antes. Perfilando-se como uma das principais nações no panorama geopolítico da centúria de 1700, a música sacra em Portugal comungava, com naturalidade, daquelas vicissitudes.

 

O presente programa põe em relevo distintos matizes da confluência das aparentemente antagónicas
dinâmicas na prática performativa do nosso país, por meio de um alinhamento integralmente presente em fontes manuscritas setecentistas. Desde logo, numa evocação do provável 450º aniversário natalício de Filipe de Magalhães (c1571-1652), apresenta-se como obra axial o seu Magnificat do 1º tom (versos ímpares), numa transcrição do Prof. Doutor José Abreu. Ocupa os primeiros fólios de 'Cantica Beatissimae Virginis' – um dos dois volumes que Magalhães publicou em Lisboa no ano de 1636 –, mas é possível encontrá-lo também, em cópia manuscrita datada de 1769, no Arquivo da Sé Patriarcal.

 

Da autoria de Manuel Mendes (c1547-1605) - provável mestre de Magalhães, a quem legou o espólio musical
para uma desejável publicação póstuma que nunca se concretizou – é apresentada a antífona 'Asperges me' a partir de um manuscrito datado de 1736. Neste manuscrito, explicita-se que, às cinco vozes originais da autoria de Mendes, foram adicionadas três por Manuel Soares (m1756), renomado músico que ocupou o cargo de organista da Capela Real.

 

Uma distinta intervenção de Soares a uma obra pré-existente surge noutro manuscrito exarado no mesmo ano de 1736: desta feita, trata-se da adição de secções completas às magistrais 'Lamentationes', da autoria de Fernando de Almeida (c1600-1660), por forma a assegurar todo o texto em polifonia. Eloquentemente, a forma como Soares emulou o estilo de Mendes e Almeida tem tornado infrutíferas as tentativas de distinguir o material original do acrescentado.

 

Contemporâneo de Almeida, João Lourenço Rebelo (1610-1661/5) é um dos mais reconhecidos músicos
portugueses nascidos na centúria de 1600, com uma obra marcante para as gerações seguintes, plasmada numa sucessão de cópias manuscritas até finais do século XVIII. 'Dixit Dominus' abre um ciclo de salmos para Vésperas de Rebelo que integra um volume dedicado a esta Hora litúrgica preservado em Coimbra. Este mesmo volume inclui o salmo 'Credidi propter', do músico campomaiorense Pedro Vaz Rego (1673-1736). Apesar da sua vinculação ao stile antico, é possível discernir nesta obra de Vaz Rego uma linguagem harmónica mais arrojada, dificilmente engendrável antes do século XVIII. Também ancorado no 'stile antico', é hoje interpretado o surpreendente 'Kyrie' da Missa 'quatuor vocum' de Domenico Scarlatti (1685-1757), músico com uma indelével e influente passagem por Portugal na década de 1720, enquanto mestre de capela ao serviço de D. João V.

 

Enquanto Scarlatti deixava Roma e chegava a Portugal, João Rodrigues Esteves (c1701-1752) fazia o percurso inverso, enviado como bolseiro a expensas do monarca português para estudar com Ottavio Pitoni (1657-1743). Data desta época o salmo 'Laudate pueri' - aqui interpretado a partir de uma transcrição do Prof. Doutor Eugénio Amorim – em cujo manuscrito, datado de 1722, surge a expressão “Feito em Roma pello metodo dos psalmos de Rabello”, numa alusão a João Lourenço Rebelo. Do mesmo autor, 'Miserere mei Deus' é uma pungente versão a oito vozes do salmo penitencial, neste caso explicitamente destinado à Hora litúrgica das Matinas de Sábado Santo. A completar o programa do recital de hoje, comemora-se mais uma efeméride: o 5º centenário do desaparecimento de Josquin des Prez (c1450-1521). Com esse propósito, é interpretada 'Stabat Mater', uma das suas obras mais emblemáticas, objecto de uma tradição de cópias manuscritas por toda a Europa até ao século XIX.

 

Luís Toscano (dir. musical)