Restauro integral restituirá autenticidade e brilho à Capela do Palácio Nacional de Sintra
20 abr. 2026
A Parques de Sintra deu início aos trabalhos de conservação e restauro integral da Capela Real do Palácio Nacional de Sintra. Trata-se da maior intervenção dos últimos cem anos, após a campanha levada a cabo nos anos 20 e 30 do século XX, com o importante contributo do arquiteto Raul Lino no final deste período. O projeto, que implica um investimento de cerca de 2,7 milhões de euros, foi apresentado esta sexta-feira, 17 de abril, no Palácio Nacional de Sintra.
João Sousa Rego, presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra, define a intervenção como “particularmente exigente e simbólica”, devido às múltiplas camadas históricas, à diversidade de materiais e à complexidade das técnicas presentes no espaço.
Tendo por base um amplo processo de investigação levado a cabo pela Parques de Sintra em conjunto com o Instituto Superior Técnico e o Laboratório Hércules, unidade de investigação da Universidade de Évora, a empreitada envolve uma equipa multidisciplinar e incide sobre a totalidade da Capela e dos espaços envolventes, abrangendo tanto o interior, como o exterior. Com destaque para o teto mudéjar e para o pavimento cerâmico da mesma época, todos os elementos serão recuperados, nomeadamente, revestimentos decorativos, pinturas murais, azulejos, coberturas, fachadas e pátios adjacentes.
“Vamos atuar sobre as causas da degradação, enquanto estabilizamos e recuperamos os elementos decorativos e construtivos. As ações de reforço estrutural; a reabilitação das coberturas e dos sistemas de drenagem; e o incremento da capacidade de monitorização futura do estado de conservação do edificado vão garantir a sua preservação a longo prazo”, explica João Sousa Rego.
“O nosso objetivo é evitar que as próximas gerações precisem de fazer intervenções desta magnitude. Ao cuidar do património de forma contínua, sistemática e informada, conseguimos intervir antes que pequenas patologias se transformem em perdas irreversíveis”, afiança o responsável.
Na apresentação da empreitada, intervieram, igualmente, João Cortês, Diretor Técnico para o Património Construído da Parques de Sintra, que detalhou o Plano de Gestão Patrimonial do Palácio Nacional de Sintra, e a arquiteta Diana Francisco, que abordou a história e fases construtivas da Capela Real. Alexandre Costa, da NCREP - Consultoria em Reabilitação do Edificado e Património, centrou-se nos trabalhos de engenharia, enquanto José Maria Lobo de Carvalho e Cristina Pedrosa, da Conservation Practice, revelaram o minucioso projeto de conservação e restauro do teto mudéjar.
Templo do Espírito Santo e joia da arte mudéjar
A Capela Real do Paço de Sintra foi fundada por D. Dinis, no início do século XIV, e dedicada ao Espírito Santo, cujo culto foi introduzido em Portugal pela Rainha Santa Isabel. Essa invocação reflete-se no padrão decorativo de pombas carregando um ramo de oliveira no bico representadas na pintura a fresco das paredes.
Alterado e aumentado durante o reinado de D. Afonso V, o templo é fortemente marcado pelo gosto mudéjar — feliz simbiose entre a arte cristã e a arte muçulmana. A este nível, destaca-se a decoração mourisca do teto, de madeira entalhada em técnica de alfarge com motivos de “laço” ou “de laçarias” (padrões geométricos de composição radial ou estrelada). O teto datado do século XVI é um dos poucos exemplares da sua tipologia que subsistem na atualidade em Portugal. Elaborado na mesma época, e também representativo do mudejarismo, o tapete cerâmico com azulejos alicatados é um testemunho da técnica que consistia em combinar secções recortadas de azulejos de diferentes cores e formatos.
A tradição indica que no local da Capela-mor existiria uma primitiva mesquita árabe. Ao pátio contíguo foi atribuído o nome de Meca e julga-se que o pavimento cerâmico ainda tenha vestígios dessa construção.
Centro da vida religiosa do Paço de Sintra ao longo dos séculos, a Capela Real era o espaço onde se prestava, simultaneamente, serviço a Deus e ao rei. Durante a missa, o monarca ocultava-se por detrás de uma cortina junto à capela-mor (o espaço mais importante). Isto conferia uma aura de sacralidade ao rei, colocando-o acima dos demais presentes.
A Capela Real é, assim, um magnífico exemplar do encontro de culturas, de grande valor histórico, artístico e simbólico — um importante legado que importa preservar e transmitir às gerações vindouras. Esse é o principal intuito da campanha integral de conservação e restauro que agora arranca. Quando estiver concluída, o visitante encontrará um espaço mais claro, mais coerente e mais próximo da sua autenticidade histórica, que enriquecerá a sua experiência de visita. As cores dos revestimentos e os dourados dos elementos decorativos recuperarão o seu brilho, evidenciando a profundidade, a luz e a singularidade da Capela Real no contexto do Palácio Nacional de Sintra.
A empreitada tem uma duração prevista de 22 meses, prevendo-se a sua conclusão para o segundo semestre de 2027.