História do Palácio Nacional de Sintra

Parques De Sintra Palacio Nacional De Sintra

O Paço de Sintra é pela primeira vez referido por Al-Bakrî, geógrafo árabe do século X, juntamente com o castelo que lhe faz face no alto da serra, hoje denominado Castelo dos Mouros. Em 1147, na sequência da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, dá-se a rendição dos almorávidas de Sintra, pondo fim a mais de três séculos de domínio muçulmano. Na situação do atual palácio, no chamado Chão da Oliva, situava-se, provavelmente, a residência dos governadores mouros, cujos vestígios estão por encontrar.

 

Praticamente todos os reis e rainhas de Portugal habitaram o Palácio Nacional de Sintra por períodos mais ou menos prolongados, aqui deixando a sua marca e a memória das suas vivências. Ao longo do tempo, foi tomando diferentes formas e incorporando as tendências artísticas das várias épocas, apresentando, hoje, vários estilos arquitetónicos de que sobressaem os elementos góticos e manuelinos. É, também fortemente marcado pelo gosto mudéjar – simbiose entre a arte cristã e a arte muçulmana – patente nos exuberantes revestimentos azulejares hispano-mouriscos. A configuração atual do edifício resulta essencialmente das campanhas de obras promovidas nos reinados de D. Dinis, D. João I, D. Manuel I e D. João III.

 

O primeiro documento a atestar a existência de um palácio no Chão da Oliva data de 1281. Trata-se de um contrato estabelecido entre o rei D. Dinis (reinou 1279-1325) e os muçulmanos livres de Colares. D. Dinis diminuiu-lhes a carga fiscal, mas em contrapartida tinham que zelar pela conservação do palácio.  Por esta altura, o Paço Real limitava-se à parte mais elevada do atual palácio e a uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo, cujo culto foi introduzido em Sintra pela Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis.

 

O Palácio, a vila de Sintra e o seu território foram concedidos à Rainha Santa Isabel em 1287 pelo rei D. Dinis. A propriedade continuava a ser da coroa, mas a rainha era a beneficiária dos seus proventos económicos. Um século mais tarde, a entrega de Sintra às rainhas tornou-se prática constante. Ao receber a vila e os seus paços, as rainhas de Portugal eram senhoras de todo um vasto património que lhes permitia manter uma Casa, ou seja, um elevado número de pessoas que dela dependiam. A Casa das Rainhas era portanto todo o conjunto de palácio, propriedades, rendas e pessoas à sua guarda: desde senhoras nobres e oficiais a serventes e pessoas escravizadas.

 

Durante o reinado de D. João I (1356-1433), o palácio foi alvo de intervenções bastante significativas. Aquele que era paço da rainha D. Filipa de Lencastre foi tornando-se também num paço preferido do rei, que aqui quis, através da opulência de novas salas, afirmar o seu estatuto de fundador da nova dinastia de Avis, como é o caso da Sala dos Cisnes. O novo paço passou a estruturar-se em volta do Pátio Central e passou também a contar com uma a cozinha com duas enormes chaminés cónicas.

 

Foi no Paço de Sintra que o rei D. João I recebeu, em 1413, os espiões enviados à corte da Sicília numa pretensa missão diplomática cujo real objetivo era o de obter dados estratégicos sobre o porto de Ceuta. Estas informações foram essenciais para o ataque lançado pelo rei português contra aquela cidade, cuja conquista veio a marcar simbolicamente o início da ocupação portuguesa do Norte de África.

 

 

Durante o século XV, a presença do rei no palácio tornou-se mais frequente. A caça foi um dos principais atrativos para a deslocação da corte a Sintra, pois a região reunia as condições perfeitas para a disseminação tanto de caça grossa (javali, cervos), como de caça miúda (coelhos, perdizes). Outra razão foi a afirmação de Lisboa como centro da progressiva burocratização do governo do reino, o que levou a corte a circunscrever as suas deslocações a um raio cada vez menor em torno da principal cidade portuguesa. Durante este período, a vila de Sintra mantinha-se na Casa das Rainhas, mas o palácio era também cada vez mais um espaço dos reis de Portugal.

 

Com D. Manuel I (1469-1521), o Palácio recebeu os elementos decorativos que ainda hoje constituem a sua marca distintiva, nomeadamente, os revestimentos azulejares hispano-mouriscos. Acrescentou a imponente Sala dos Brasões, cuja cúpula ostenta as armas de D. Manuel, de seus filhos e de setenta e duas das mais importantes famílias da nobreza. A Ala Nascente data igualmente desta época.  No final do seu reinado, o Paço de Sintra era uma dos mais grandiosos palácios dos reis de Portugal, sendo as suas salas decoradas com ouro trazido dos territórios colonizados pelos portugueses.

 

No reinado de D. João III (1502-1557) foi contruído um novo Paço, conectando os aposentos principais, a sul, com a ala noroeste do Palácio, onde se localizavam a Sala dos Brasões e os aposentos da Rainha D. Catarina de Áustria (1507-1578). O Palácio foi frequentemente habitado durante o século XVI, sendo um dos espaços preferidos do rei D. Sebastião (1554-1578).

 

No século XVII, viveram-se tempos sombrios nesta residência real. Depois de seis anos de desterro em Angra do Heroísmo, para onde tinha sido afastado pelo irmão, que o considerava incapaz de governar, D. Afonso VI vem para o Palácio de Sintra. Ali ficou encarcerado, no quarto que ainda hoje tem o seu nome, desde 1674 até ao momento da sua morte, que ocorreu nove longos e penosos anos depois.

 

Após o grande terramoto de 1755, que afetou severamente o edifício, o Palácio de Sintra foi reconstruído, mantendo-se a silhueta que já tinha desde meados do século XVI e que ainda hoje conserva.

 

Com o fim do Antigo Regime e a implementação de uma Monarquia Constitucional em 1822, o Paço de Sintra foi adaptado para uma família real que deixou de ser o centro de decisão política. A utilização tornou-se mais doméstica e próxima dos modelos atuais.

A revolução de 1910 vem pôr um fim abrupto à utilização do Paço de Sintra como residência real, sendo a Rainha D. Maria Pia, viúva do Rei D. Luís, a última monarca a habitar o Palácio, do qual partiu para o exílio. Nesse mesmo ano, o Palácio Nacional de Sintra foi declarado Monumento Nacional.

 

No entanto, seria preciso esperar pelo final dos anos 30 do século XX para que o Palácio abrisse ao público de forma sistemática e com preocupações de ordem museológica. Ao longo de toda essa década foram feitas obras profundas que visaram transmitir uma imagem de um passado grandioso de Portugal. Em pleno regime ditatorial do Estado Novo (1933-1975) enaltecia-se o papel positivo de Portugal no processo de globalização, mas omitia-se a verdadeira escala do seu impacto.

 

Nos últimos anos, o Paço de Sintra tem-se assumido como um dos mais importantes polos culturais no coração da vila de Sintra. Faz parte da Paisagem Cultural de Sintra, inscrita pela UNESCO como Património Mundial, a 6 de dezembro de 1995. Desde setembro de 2012, integra o património sob a gestão da Parques de Sintra e, em 2013, foi incluído na Rede de Residências Reais Europeias.

 

Neste palácio, a Parques de Sintra tem promovido diversas intervenções de conservação, sendo a mais recente o restauro integral do Jardim da Preta, que pode ser visitado gratuitamente. A empresa tem vindo a investir, igualmente, no enriquecimento do acervo do monumento, tendo integrado no circuito expositivo, em 2019, um raro Leito de Aparato do século XVII, peça única em Portugal. Ao nível da museografia, foram recentemente recuperados e abertos ao público os Aposentos de D. Maria Pia de Saboia. Este novo projeto expositivo e museológico integrou, no circuito de visita, um total de 8 novos espaços e cerca de 100 novos bens móveis, entre mobiliário e obras de pintura e de artes decorativas, que até agora estavam inacessíveis ao olhar dos visitantes.