Reconstituição do Leito de D. Pedro IV, I do Brasil (1798-1834)
O leito de aparato em que D. Pedro IV de Portugal, primeiro Imperador do Brasil, morreu na Sala de D. Quixote do Palácio Nacional de Queluz, espaço em que este monarca havia nascido 35 anos antes, é mais do que uma peça de mobiliário: marca o fim do Antigo Regime e o início do Liberalismo em Portugal. A sua devolução a esta sala valoriza o discurso expositivo do monumento, permitindo a leitura de um espaço impregnado com a memória desta figura indelevelmente associada à história do Palácio Nacional de Queluz, de Portugal e do Brasil.
A reconstituição historicamente informada deste leito de aparato exigiu uma investigação aprofundada, seguida de um processo minucioso que contou com artesãos de marcenaria e costura para obter a versão o mais aproximada possível da peça original, com o mesmo tipo de madeira e os mesmos tecidos descritos nos inventários estudados.
É um projeto que se enquadra num dos três princípios orientadores que guiam a acão da Parques de Sintra - uma oferta cultural e turística diferenciadora que enriquece a experiência e valoriza, de forma autêntica, o património – e que revela como a investigação histórica, a conservação e as artes tradicionais podem trazer de volta peças fundamentais da nossa memória.
Uma relíquia histórica que se perdeu e que agora ressuscita
Na noite de 4 para 5 de outubro de 1934, na sequência dos trabalhos generalizados de restauro com vista à abertura permanente do Palácio de Queluz ao público, deflagrou um incêndio que afetou parte importante do edifício, com destaque para a ala onde se encontrava a Sala de D. Quixote. Nessa altura, apesar de muito do mobiliário existente no palácio ter sido salvo durante o incêndio, o leito de D. Pedro IV não resistiu, tendo sido substituído por outro leito de dossel das antigas coleções da casa real, que se manteve até 2025.
Em 2022, o valor simbólico desta peça levou a Parques de Sintra a desencadear um projeto de investigação que permitiu trazer de volta à vida o leito de morte do Rei-Soldado. A iconografia existente — a aguarela de Ferdinand le Feubure datada de 1850 e fotografias de época — forneceu informação preciosa tanto no que diz respeito à estrutura em madeira, como à armação têxtil, que abrange a colcha, o estofo do espaldar e o dossel com a respetiva franja em passamanaria. Nas descrições constantes em inventários posteriores à morte de D. Pedro IV (1851, c. 1874, 1908-1910) foi possível encontrar dados valiosos quanto aos materiais utilizados, como a madeira de espinheiro no leito, a seda adamascada de cor azul na colcha ou a cassa branca bordada no dossel, cuja franja apresentava borlas verdes e brancas. Dois destes inventários aludem, igualmente, às dimensões de alguns dos elementos da armação têxtil, constituindo uma mais-valia para este projeto.
Dada a especificidade dos componentes que envolvem esta peça de mobiliário, os conservadores da Parques de Sintra dividiram o projeto em duas vertentes distintas. Por um lado, a realização da estrutura em madeira de espinheiro, tal como referem os inventários, foi confiada a um marceneiro com experiência em mobiliário clássico, que desenvolveu um desenho técnico da mesma e a concretizou. Simultaneamente, decorreu a elaboração da armação têxtil por parte de um atelier de costura/decoração que reproduziu com rigor os elementos visuais e descritivos existentes, recorrendo aos mesmos tecidos mencionados nos inventários.
O resultado deste trabalho passa, agora, a estar ao dispor dos visitantes na Sala D. Quixote do Palácio Nacional de Queluz. Inserida na ala dos aposentos privados dos monarcas edificada na segunda metade do século XVIII, com projeto do arquiteto francês Jean Baptiste Robillion, esta sala decorada com elementos ao gosto rococó e neoclássico deve a sua designação às pinturas com cenas da vida de D. Quixote de la Mancha, de Cervantes, que decoram a sanca e as sobreportas. O espaço teve diferentes utilizações ao longo do tempo, mas a memória da morte de D. Pedro IV é a que resiste até hoje.
A morte de D. Pedro IV ou o ato político que liquidou o Antigo Regime
Em 1834, gravemente doente, D. Pedro de Alcântara ex-rei de Portugal e primeiro imperador do Brasil, escolheu a Sala de D. Quixote do Palácio de Queluz para cenário da sua morte e do seu último ato político. Após a vitória na guerra civil travada com os partidários do Absolutismo liderados pelo seu irmão, D. Miguel, instaurou o Liberalismo em Portugal, mas, na hora de deixar o mundo, pediu, estrategicamente, que o levassem para o bastião do Antigo Regime, onde tinha nascido. Rodearam-no nos seus últimos momentos a mulher, D. Amélia Leuchtenberg, a jovem rainha D. Maria II, a princesa D. Maria Amélia, os duques da Terceira e Saldanha, ajudantes de campo, criados particulares e o Padre Marcos, seu confessor.
O objetivo por detrás desta decisão — sabemo-lo hoje — foi plenamente alcançado: com a sua partida, encerrou definitivamente o capítulo do Absolutismo na história do país e colou de tal maneira a sua memória ao Palácio de Queluz que o lugar nunca mais foi o mesmo. A Sala D. Quixote converteu-se numa espécie de santuário e o leito de aparato onde deu o seu último suspiro adquiriu grande significado simbólico e foi preservado como relíquia histórica.
O novo regime procurou preservar o legado de D. Pedro IV enquanto “libertador” da Nação, pelo que a Sala de D. Quixote manteve a aparência de quarto de dormir que lhe fora conferida em 1834, dominada pelo mesmo leito, e não voltou a ser utilizada pelos monarcas seguintes, que preferiram manter-se afastados de Queluz.
O local passou a ser referido nos escritos de vários visitantes ilustres que se deslocaram a Portugal, como o príncipe Felix Lichnowsky da Prússia ou a inglesa Dora Wordsworth. No entanto, a descrição mais emocionada foi deixada pela princesa D. Maria Amélia, filha mais nova de D. Pedro IV, também falecida cedo vítima de tuberculose, e que em carta datada de 27 de agosto de 1851, dá conta de uma visita a Queluz:
"Depois da morte de meu pai, nunca mais revira esse palácio. Não me lembrava de nada, absolutamente nada, com exceção do quarto em que meu pai morreu!... Ali, eu me lembrava de tudo. Cada objeto está gravado na minha memória, se bem que eu só tivesse nessa ocasião três anos de idade! Foi com grande emoção que entrei nesse quarto!... O leito… o leito é o mesmo ainda, no mesmo lugar, decorado com as mesmas cortinas; lá estão as mesmas colchas, as mesmas almofadas… tudo bem conservado… Ai…"