Aposentos da Rainha D. Carlota Joaquina no Palácio Nacional de Queluz
A investigação histórica desenvolvida pela Parques de Sintra permitiu identificar os aposentos onde a Rainha D. Carlota Joaquina viveu os últimos anos da sua vida e onde faleceu, aos 54 anos. Situada no piso térreo do Palácio Nacional de Queluz, numa ala próxima da Sala do Trono, esta área do palácio passou a integrar um novo percurso museológico dedicado à vida, à intimidade e aos gostos da monarca.
A identificação destes espaços permitiu aprofundar o conhecimento sobre a evolução histórica do edifício e corrigir informação que apontava o Pavilhão Robillion como o local onde a rainha morreu. A investigação revelou, assim, uma nova dimensão da relação de Carlota Joaquina com o Palácio Nacional de Queluz, onde viveu durante a infância e ao qual regressou em 1821, após o regresso da corte portuguesa do Brasil.
O projeto de musealização recupera a memória desta vivência através de cinco salas — Sala de Entrada, Antecâmara, Oratório, Câmara e Camarim —, cujas funções e decoração permitem compreender diferentes dimensões da vida privada da rainha. A apresentação de mobiliário, pinturas, objetos devocionais e peças de uso pessoal restitui a estes espaços uma dimensão humana, aproximando os visitantes do quotidiano da corte portuguesa.
Investigação e recuperação da memória histórica
Nascida em Espanha, em 1775, D. Carlota Joaquina chegou a Portugal aos 10 anos, para casar com o infante D. João, futuro rei D. João VI. O Palácio Nacional de Queluz esteve presente em diferentes etapas da sua vida: foi cenário da infância, residência da família real e, nos últimos anos, o lugar que escolheu para viver, já afastada dos aposentos que anteriormente ocupava no piso superior do palácio, entretanto desaparecidos no incêndio de 1934.
A investigação desenvolvida pela Parques de Sintra permitiu localizar a ala onde a rainha se instalou na fase final da vida e confirmar que foi aí que morreu, em 1830. Este trabalho contribui para uma leitura mais rigorosa da organização e da evolução do Palácio Nacional de Queluz, relacionando a história dos seus espaços com a das pessoas que os habitaram.
A identificação das cinco salas permitiu também compreender melhor as funções que desempenhavam na vida quotidiana da soberana. A Antecâmara destinava-se à espera dos visitantes; o Oratório era o espaço de recolhimento e oração; a Câmara correspondia ao quarto de dormir e aos cuidados pessoais; e o Camarim funcionava como uma sala de convívio privado e lazer. Em conjunto, estes espaços revelam aspetos da intimidade, das práticas religiosas e dos hábitos da rainha, bem como o seu gosto, atento às tendências artísticas e decorativas da época.
Museografia e valorização do acervo
A nova museografia reúne objetos que pertenceram a D. Carlota Joaquina e que permitem restituir a identidade histórica dos aposentos. Entre mobiliário, pinturas, objetos devocionais e peças decorativas, destacam-se obras recentemente adquiridas pela Parques de Sintra, agora apresentadas ao público pela primeira vez, bem como pinturas cedidas temporariamente pelo Museu Nacional Machado de Castro.
Entre as novas aquisições encontra-se uma cruz-relicário do Santo Lenho, com uma representação escultórica da Pietà, de Miguel Ângelo, produzida em Itália no início do século XIX. A peça pertenceu à rainha e esteve nos seus aposentos no Palácio de Queluz, encontrando-se descrita nos inventários históricos. O seu paradeiro era desconhecido desde que foi vendida em leilão após a morte da soberana. O reconhecimento da peça pela equipa da Parques de Sintra permitiu recuperá-la e reintegrá-la no contexto patrimonial a que pertenceu.
Outro destaque é o retrato de D. Carlota Joaquina, da autoria de Luis de la Cruz y Ríos, que representa a rainha nos últimos anos de vida, período em que habitou esta ala do palácio. A obra constitui um testemunho da imagem da soberana e dos códigos de representação e da moda das cortes europeias da época.
O percurso integra ainda um retrato de D. Miguel I, atribuído a João Baptista Ribeiro e executado entre 1828 e 1830. A pintura representa o filho da rainha, que esta apoiou na defesa da causa absolutista, envergando várias ordens militares e honoríficas, com a barra do Tejo e a Torre de Belém como cenário.
A museografia inclui também o empréstimo de duas pinturas do acervo do Museu Nacional Machado de Castro, até agora nunca apresentadas ao público: um retrato de D. Carlota Joaquina enquanto Princesa do Brasil e um retrato de D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança (1786–1812), que habitou estes aposentos antes da rainha, sua tia.
A reunião destas peças permite aprofundar a interpretação dos espaços e estabelecer relações entre a história do palácio, a trajetória da monarca e a circulação do património artístico entre diferentes contextos e residências reais. A recuperação de objetos que pertenceram à rainha e a sua apresentação pública contribuem, simultaneamente, para preservar testemunhos materiais da história portuguesa e ampliar o conhecimento sobre o acervo associado ao Palácio Nacional de Queluz.
Conhecimento, interpretação e experiência de visita
A intervenção assenta na articulação entre investigação histórica, valorização do património e interpretação museológica. A identificação dos aposentos e a contextualização dos objetos permitem apresentar o palácio não apenas como um monumento de representação e cerimónia, mas também como um espaço de vivência quotidiana, marcado pelas escolhas, pelos hábitos e pelas circunstâncias pessoais dos seus habitantes.
Ao recuperar a memória dos últimos anos de D. Carlota Joaquina, o projeto acrescenta novas perspetivas à interpretação do Palácio Nacional de Queluz e aprofunda a compreensão do papel da rainha na história da corte portuguesa. A organização do percurso em torno das funções de cada sala, associada à presença de objetos que lhe pertenceram, permite estabelecer uma relação mais próxima entre os visitantes e a história do monumento.
A iniciativa reflete o compromisso da Parques de Sintra com a investigação contínua dos bens que tem à sua guarda e com a divulgação do conhecimento produzido. A aquisição, conservação e apresentação pública de peças históricas constituem igualmente uma forma de salvaguardar testemunhos materiais para as gerações futuras, reforçando a dimensão cultural e patrimonial do Palácio Nacional de Queluz.
Enquadramento estratégico
O projeto contribui diretamente para vários dos objetivos estratégicos da Parques de Sintra para o horizonte 2025–2027, em particular:
- 2. Compreensão e recuperação do património: A intervenção resulta da investigação sobre a evolução histórica do edifício e procura recuperar uma dimensão documentada do Palácio, conciliando autenticidade, conservação, reversibilidade e fruição qualificada.
- 1. Oferta cultural e turística diferenciadora: A recuperação da leitura do claustro enquanto espaço habitado permite enriquecer a experiência de visita e proporcionar uma compreensão mais completa e autêntica do Palácio Nacional da Pena e da vida quotidiana da família real no século XIX.
Em conjunto, a investigação, a recuperação de peças e a musealização dos aposentos demonstram como o aprofundamento do conhecimento histórico pode dar origem a novas formas de interpretar e valorizar o património. O projeto devolve visibilidade a um capítulo da história do Palácio Nacional de Queluz e perpetua a memória de uma das figuras mais marcantes e controversas da história portuguesa e brasileira.