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Oratório de D. João VI no Palácio de Queluz recupera esplendor perdido há mais de um século

11 mar. 2026

Duzentos anos após a morte de D. João VI, o Palácio Nacional de Queluz recuperou a atmosfera sumptuosa e os objetos originais do espaço onde o monarca se recolhia quotidianamente em oração na época em que ali viveu. Pela primeira vez, em mais de um século, é possível observar o oratório numa versão muito próxima da que D. João VI experienciou e penetrar na intimidade da sua fervorosa devoção católica.

 

O projeto de reconstituição do oratório de D. João VI foi apresentado ontem, 10 de março, data do bicentenário da morte do monarca, numa conferência que decorreu no Palácio Nacional de Queluz, com a presença de Susana Graça, Vice-Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo; José Alberto Ribeiro, Diretor do Palácio Nacional da Ajuda; Maria de Jesus Monge, Diretora do Museu Nacional de Arte Antiga; e Gilberto Jordan, em representação da World Monuments Fund.

 

“Trata-se de um compartimento pequeno, mas de enorme valor histórico, simbólico e museológico”, começou por ressaltar João Sousa Rego, Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra na sua intervenção. “Este projeto permitiu devolver ao oratório a sua dignidade arquitetónica, o seu enquadramento decorativo e a coerência histórica do acervo que nele se conserva. Foi possível restituir a este espaço os objetos que pertenceram a D. João VI e recriar a atmosfera que o caracterizava nas décadas de 1820 e 1830”, sublinhou.

 

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João Sousa Rego destacou o aprofundado trabalho de investigação que permitiu a reconstituição historicamente informada deste espaço e enfatizou: “esta é a missão da Parques de Sintra: cuidar do património com conhecimento, devolvê-lo ao público com rigor e preparar o seu futuro com responsabilidade.” O responsável realçou, ainda, que esta intervenção aproxima os visitantes de “uma parte mais íntima, mais humana e mais completa da história de Queluz” e terminou reafirmando o compromisso da Parques de Sintra com a conservação, a investigação e a valorização do património.

 

Seguiram-se as intervenções do conservador Hugo Xavier, da arquiteta Inês Guerreiro e das conservadoras-restauradoras Joana Loureiro e Inês Magalhães, que, contando com a moderação de António Nunes Pereira, diretor dos Palácios da Parques de Sintra, explicaram todo o processo.

 

Fotografia de 1905 deu o mote para montar o “puzzle”

 

A investigação histórica realizada pela Parques de Sintra teve como ponto de partida uma fotografia datada de 1905. Esta imagem mostra o compartimento tal como foi conservado após a morte de D. Pedro IV, que ocorreu na Sala D. Quixote, contígua ao oratório — um acontecimento marcante que tornou esta área do palácio numa espécie de santuário para perpetuar a memória do Rei-Soldado.

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Seguiu-se o estudo de outras fontes iconográficas e documentais, nomeadamente inventários da época, para perceber como era o espaço e quais os objetos que o decoravam. A junção de todas as pistas conduziu a uma conclusão surpreendente e paradoxal: muito embora o oratório de D. João VI seja um dos compartimentos mais reduzidos do Palácio de Queluz, é talvez a divisão de que subsistem mais peças originais, com destaque para o relevante conjunto de pinturas que fazem dele uma pequena galeria.

 

No entanto, a maior parte destes objetos encontrava-se dispersa, fruto das vicissitudes que o Palácio atravessou e das opções que foram sendo tomadas ao longo do tempo. Muitas das pinturas já tinham perdido as molduras originais, que estavam dissociadas, e tinham sido adaptadas a espelhos. Isto, porque, durante o século XX, foi considerado que algumas destas pinturas não teriam a importância ou o interesse artístico que estaria subjacente às mesmas e deu-se outra utilidade às molduras.

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Reunidos todos os elementos e montado o “puzzle”, passou-se para a fase de intervenção, quer na sala, quer nas peças que D. João VI escolheu para decorá-la quando regressou do Brasil, em 1821. O trabalho envolveu uma equipa multidisciplinar de conservadores-restauradores, incluindo especialistas em pintura, madeira, metais, papel e têxteis, que trabalharam com o máximo respeito pela história material dos objetos.

 

Antes de devolver às paredes o revestimento com damasco encarnado que o caracterizava originalmente, foi levado a cabo o restauro do teto, dos vãos das portas e janelas e restantes elementos em madeira, bem como da pintura decorativa datada dos anos 70 do século XX, que se conservou até à atualidade. Assim continuará por baixo do tecido, constituindo uma prova histórica da opção que foi tomada nessa altura.

 

O baldaquino e a mesa de altar que se perderam foram reconstituídos e deu-se particular atenção à iluminação, uma componente importante do projeto para conferir a devida dignidade ao espaço e realçar as peças expostas.

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A arte ao serviço da fé num espaço tão íntimo quanto sumptuoso

 

O oratório de D. João VI é um compartimento de dimensões reduzidas, mas muito denso. Um espaço tão íntimo quanto sumptuoso, onde sobressaem as pinturas que decoram as paredes forradas a damasco encarnado. Para lá do valor artístico, importa sublinhar o significado afetivo que teriam não só para D. João VI, como para as gerações seguintes que mantiveram este espaço inalterado durante mais de um século, preservando a sua memória.

 

Ao centro, destaca-se a pintura retabular com “São João Batista com o Cordeiro”, que é o santo onomástico de D. João VI, isto é, o santo do nome do rei. Trata-se de uma peça sui generis, uma vez que é constituída por uma pequena tela, da autoria de Arnaud Pallière (1784 -1862), que foi aumentada no Brasil, mas que permaneceu destacável e portátil para que o monarca pudesse levá-la consigo em viagem.

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Outra pintura relevante é a “Santa Maria Madalena” de Domingos Sequeira (1768-1837), elaborada em Roma, quando o artista era pensionista do real bolsinho, ou seja, bolseiro de D. Maria I, e estava numa fase académica de aprendizagem em que a cópia fazia parte do processo. Por isso, não é uma pintura original, é uma cópia de uma obra do artista italiano Guido Reni.

 

A pintura “São José com o Menino”, atribuída à princesa Maria Francisca Benedita, tia de D. João VI teria, igualmente, um significado muito especial para o rei. Tal como a “Nossa Senhora da Conceição”, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintada no Rio de Janeiro, em 1816, por se tratar da padroeira de Portugal.

 

O projeto agora concluído implicou um investimento de cerca de 100 mil euros e vem complementar o trabalho levado a cabo na Sala D. Quixote, adjacente ao oratório, onde em setembro do ano passado foi reconstituído o leito onde morreu D. Pedro IV. Todo este trabalho visa enriquecer a experiência de visita e permitir uma leitura e uma interpretação mais fidedigna dos aposentos que estiveram ao serviço de D. João VI, de D. Miguel I e de D. Pedro IV, figuras cuja memória é indissociável da história do Palácio de Queluz, onde a Parques de Sintra vai continuar a trabalhar na recuperação de outros espaços.