Descobertos Aposentos do Palácio de Queluz onde D. Carlota Joaquina viveu os últimos dias
21 out. 2026
O trabalho de investigação levado a cabo pelas equipas da Parques de Sintra continua a trazer à luz pedaços da história que o tempo quase apagou. No Palácio Nacional de Queluz, foram descobertos os aposentos onde a Rainha D. Carlota Joaquina viveu os últimos anos e onde veio a falecer. Trata-se de uma ala localizada junto à emblemática Sala do Trono, que, desde ontem, 20 de outubro, apresenta um novo projeto museográfico dedicado à figura da monarca cuja vida está intimamente ligada a este monumento.
“Esta descoberta dá-nos uma leitura mais rigorosa do edifício, e permite-nos compreender melhor a forma como uma vida se inscreveu nele”, considera João Sousa Rego, Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra, acrescentando que, desta forma, “a História ganha uma dimensão humana que, por vezes, a solenidade dos monumentos parece deixar à distância.”
Num total de cinco salas, os Aposentos de D. Carlota Joaquina revelam a intimidade da rainha, as suas vivências e os seus gostos através dos objetos que lhe pertenceram. O percurso inclui a Sala de Entrada; a Ante-Câmara, que correspondia à sala de espera; o Oratório, espaço devocional da monarca; a Câmara ou Quarto de Dormir, destinado ao repouso e à toilette da rainha; e o Camarim, que tinha a função de sala de estar privada.
João Sousa Rego sublinha que “para a Parques de Sintra, cuidar de um palácio implica aprofundar continuamente o conhecimento sobre ele e encontrar formas de o tornar acessível às pessoas.” O responsável defende, assim, que os palácios geridos pela empresa devem ser “casas de cultura: lugares onde a investigação se partilha, onde se descobrem novas relações e onde há sempre razões para regressar.”
Novas aquisições mostram-se ao público pela primeira vez
Entre móveis, pinturas, objetos devocionais e decorativos, os Aposentos de D. Carlota Joaquina apresentam algumas peças que foram adquiridas recentemente pela Parques de Sintra e que estão expostas ao público pela primeira vez.
É o caso de uma Cruz-relicário do Santo Lenho com uma representação escultórica da “Pietà” de Miguel Ângelo, produzida em Itália, no início do século XIX. Pertenceu a D. Carlota Joaquina e esteve nos seus aposentos no Palácio de Queluz, aparecendo descrita em pormenor nos inventários. No entanto, desconhecia-se o seu paradeiro desde que foi vendida em leilão após a morte da rainha. Recentemente, apareceu em leilão, sem estar identificada a sua propriedade original. A equipa da Parques de Sintra reconheceu a peça, recuperou-a e trouxe-a de volta a casa, quase duzentos anos depois.
Outra novidade é um retrato de D. Carlota Joaquina, da autoria do pintor Luis de la Cruz y Ríos. A pintura mostra a rainha nos últimos anos da sua vida, precisamente a altura em que viveu nesta ala do Palácio. Com o rosto emoldurado por um exuberante toucado de rendas, decorado com cravos e espigas de trigo, a rainha surge representada de acordo com a moda que estava em voga nas cortes da época.
Destaque também para um retrato de D. Miguel I, o filho que a rainha sempre apoiou na defesa da causa Absolutista. A obra, atribuída a João Baptista Ribeiro, executada entre 1828 e 1830, retrata o rei com várias ordens militares e honoríficas, tendo como fundo a barra do Tejo com a Torre de Belém.
A nova museografia desta ala conta, igualmente, com o empréstimo de duas pinturas pertencentes ao acervo do Museu Nacional Machado de Castro, que nunca foram mostradas ao público: um retrato de D. Carlota Joaquina, representada na qualidade de Princesa do Brasil, e outro de D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança (1786-1812), que habitou estes aposentos antes da terem sido ocupados pela monarca, que era também sua tia.
O Presidente do Conselho de Administração da empresa destaca a “atitude de antecipação que permite à Parques de Sintra reunir, ao longo do tempo, um acervo capaz de valorizar os palácios e dar maior profundidade às histórias” que são partilhadas com o público e sustenta que, ao assegurar a preservação destas peças e o acesso público ao seu conhecimento, a empresa cumpre também “uma missão de interesse nacional, salvaguardando testemunhos da nossa história para as gerações futuras”.
Este projeto representa um investimento de cerca de 150 mil euros, distribuído pela conservação, pelo restauro, pelas aquisições e pela museologia e “é um investimento que transforma conhecimento em experiência de visita”, conclui o responsável.
A vida de D. Carlota Joaquina no Palácio de Queluz: das alegrias da infância ao último suspiro
Carlota Joaquina nasceu a 25 de abril de 1775, no Palácio de Aranjuez, em Espanha, filha de Carlos IV e de Maria Luísa de Parma, reis de Espanha.
Em 1785, com apenas 10 anos, chegou a Portugal para casar com o infante D. João, futuro rei D. João VI. Em Queluz, viveu alguns dos momentos mais felizes da sua infância. Enquanto criança, os jardins deste palácio foram o seu recreio: andava em pequenos carros puxados por póneis, subia escadarias sem licença, brincava nos jardins.
O casamento foi consumado em 1790 e dele resultaram nove filhos, dos quais sete nasceram no Palácio de Queluz, no quarto que hoje conhecemos como D. Quixote.
Após o incêndio do Palácio da Ajuda, em 1794, a família real fixou a sua residência no Palácio de Queluz e aqui permaneceu até à transferência da corte para o Brasil, em 1807. E foi para Queluz que regressou em 1821.
Mulher profundamente culta e cultivada, lia filosofia, estudava mapas, acompanhava os jogos diplomáticos internacionais. Protegeu e apoiou escritores, músicos, intelectuais e artistas. Foi politicamente ativa numa época em que o papel das mulheres era limitado, e desafiou muitas vezes a autoridade do rei, seu marido. Por isso, e é uma das figuras mais controversas da história luso-brasileira.
Em 1824, D. Carlota Joaquina apoiou abertamente o seu filho D. Miguel na causa absolutista, nunca tendo jurado a constituição de 1822.
Nos últimos anos de vida e já doente, D. Carlota Joaquina saiu dos seus aposentos situados no andar superior do palácio de Queluz (e desaparecidos no incêndio de 1934) e mudou-se para o piso térreo do palácio.
A investigação levada a cabo pela Parques de Sintra não só revelou que os aposentos usados pela rainha na última fase da vida estavam localizados numa ala próxima da Sala do Trono (utilizada pela monarca para a suas cerimónias de audiência), como permitiu apurar que foi nesse espaço que morreu, aos 54 anos, contrariando a informação que circulou (e ainda circula) de que a rainha teria falecido no Pavilhão Robillion.
D. Carlota Joaquina é, desta forma, uma das figuras mais importantes da história do Palácio Nacional de Queluz. Este projeto museográfico dignifica e perpetua a sua memória, dando a conhecer aos visitantes a sua vida, o seu papel decisivo na corte e o seu gosto, sempre atento às tendências da época.