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O temporal que devastou o Parque da Pena

12 jan. 2024

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A 19 de janeiro de 2013, um violento temporal assolou Portugal de norte a sul, destruindo casas, deixando milhares sem água e luz durante vários dias e provocando até feridos – dados oficiais revelam que uma pessoa perdeu a vida. No dia seguinte, no Parque da Pena, o cenário era devastador: a queda de mais de 2000 árvores levou à destruição parcial de edifícios – como a Casa do Guarda do Chalet da Condessa d’Edla (bilheteira) – e das redes de caminhos e infraestruturas do Parque.

 

Em causa esteve um fenómeno raro no inverno português – uma depressão “muito cavada” e rápida, uma “ciclogénese explosiva”, que desencadeou ventos de 140 km/h e uma elevação do nível médio do mar, como explicou um especialista do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) ao jornal Expresso.

 

A dimensão dos estragos era tal que, por razões de segurança, o Parque da Pena esteve parcialmente encerrado por mais de seis meses. Era preciso desbloquear caminhos de circulação viária e pedonal, limpar jardins e áreas de mata de enquadramento, recuperar edifícios, entre outros trabalhos.

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Face a este contexto ímpar (e como resposta às inúmeras ofertas que surgiram de imediato), a Parques de Sintra acolheu uma ação de voluntariado (que esgotou em 24 horas). Assim, a 26 de janeiro de 2013, 200 voluntários da comunidade local e da Grande Lisboa meteram ‘mãos à obra’ e ajudaram a limpar uma área considerável do Parque da Pena.

 

Vamos a números:

  • Dos 85 hectares que compõem o parque, 75 foram afetados pela tempestade.
  • Os voluntários ajudaram a limpar 3,5 hectares, o que corresponde a 4% da área do parque.
  • Nesta ação, foram removidos 18m3 de folhas, 160m3 de ramas foram arrumadas em pilhas e produziu-se aproximadamente 12m3 de estilha.
  • Foram também desimpedidas centenas de metros de valetas, permitindo que a água voltasse a circular, e grande parte dos mais de 2 km de caminhos nos quais os voluntários trabalharam foi varrida.

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Os esforços de recuperação e a imprevisibilidade da Natureza

Aos poucos, o Parque da Pena começou a retomar a sua luz. Enquanto eram realizados trabalhos minuciosos (e desafiantes) de corte e remoção de árvores caídas, limpeza e recuperação do património edificado e natural, a equipa da Parques de Sintra deu início também, em janeiro de 2014, a um processo de reflorestação, para reposição dos exemplares perdidos. Foram então plantadas 285 árvores jovens de médio porte. Esta intervenção tinha como objetivo “devolver a ambiência que existia antes da intempérie, através da recuperação de uma floresta bastante densa de coníferas e folhosas, incluindo abetos, cedros, juníperos, criptomérias, píceas, sequoias, pseudotsugas, tsugas, liriodendros, faias e tílias. As árvores foram plantadas com um compasso definido, como é usual em plantações florestais, mas seguindo um plano de plantação que segue princípios e aspetos estéticos de referência na intervenção em parques e jardins românticos do séc. XIX, como é o caso do Parque da Pena”, explica a arquiteta paisagista da Parques de Sintra, Elsa Isidro.

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Mas a natureza é imprevisível – por muito que se tente ter tudo controlado, é difícil antever o os fenómenos que podem surgir. No último trimestre desse mesmo ano, assistiu-se a mais um evento climático extremo, que provocou a queda de cerca de 900 árvores adultas, a destruição parcial da cobertura da estufa principal da Quinta da Pena, o desmoronamento de muros limite de propriedade e de suporte de terras no interior do parque, a destruição de pavimentos e valetas ao longo dos caminhos do parque e o rebentamento do depósito de água para rega do Jardim da Condessa d’Edla. Felizmente, foi possível reabrir o parque ao público em poucas semanas, mas foi necessário iniciar novos esforços de levantamento de danos e iniciar novos projetos de recuperação do património. 

 

Estes processos são demorados: implicam o controlo da regeneração espontânea de espécies invasoras lenhosas, a encomenda de espécies específicas – a escolha das plantas seguiu os registos patentes na Monografia do Parque da Pena do Professor Mário de Azevedo Gomes, de 1960 –, e a plantação de muitas centenas de árvores. Aliás, em 2023 ainda estavam a ser desenvolvidos trabalhos no seguimento do rasto de destruição que estes fenómenos naturais deixaram para trás, nomeadamente com a realização de retanchas nos talhões plantados nos anos anteriores.

 

A verdade é que o saldo acabou por ser positivo: os temporais destruíram cerca de 2900 árvores, mas, ao longo dos últimos anos, foram plantadas 6768. Quem visitar agora o Parque da Pena, poderá perder-se novamente por entre a mancha verde, deixar-se levar pelos raios de sol que penetram as copas das árvores ou simplesmente sentar-se a contemplar as maravilhas que a natureza nos dá, mas que também ameaça tirar-nos.