História do Parque e Palácio Nacional da Pena
O Palácio da Pena é uma obra de duas épocas distintas, que se refletem na sua arquitetura complexa e aparentemente fantasiosa. Ao mosteiro do século XVI o rei-consorte D. Fernando II acrescentou, em meados do século XIX, um palácio inteiramente novo. Ainda hoje se reconhece, na silhueta do palácio, as duas épocas de construção que o Romantismo oitocentista soube combinar harmoniosamente.
As duas alas tiveram diferentes ocupações, embora em ambas se repitam algumas das funções domésticas, como quartos de dormir, escritórios e salas de refeições. Mas enquanto no antigo mosteiro, ou Palácio Velho, predominam os aposentos privados, apenas no Palácio Novo se encontram salas de aparato. Esta dualidade arquitetónica convida o visitante a poder conhecer dois circuitos distintos.
O antigo mosteiro da Pena
Mas a história deste lugar mágico inicia-se num passado ainda mais longínquo. No século XII, após relatos de aparições de Nossa Senhora ergueu-se, neste local, uma capela. Em 1503, o rei D. Manuel I mandou edificar aqui outro edifício religioso, o Real Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, posteriormente entregue à Ordem de São Jerónimo. Deste edifício mantém-se a antiga igreja, o claustro e as dependências do piso térreo, como as divisões que albergaram outrora a Sala do Capítulo e Refeitório dos Monges. Também no Parque da Pena se conservam espaços utilizados por este grupo de religiosos, como a Capela Manuelina e a Gruta do Monge que, à época, integravam a área da cerca monástica.
O terramoto que atingiu Lisboa em 1755 danificou o edifício sem, contudo, o arruinar. A presença dos monges nesta casa religiosa só terminou quase oito décadas depois, quando, em 1834, se extinguiram as ordens religiosas e o mosteiro foi abandonado.
Em 1838, o mosteiro foi comprado pelo rei-consorte de Portugal, D. Fernando II, um príncipe da Casa de Saxe-Coburgo e Gotha, sobrinho do duque reinante de Coburgo Ernesto I e do rei Leopoldo I da Bélgica. Dois anos antes, tinha-se casado com a rainha de Portugal, D. Maria II e, após o nascimento do herdeiro do trono, futuro D. Pedro V, recebeu o título de rei-consorte.
A Pena do Rei-Artista
D. Fernando II foi um dos homens mais cultos de Portugal, durante o século XIX. Poliglota, dominava as línguas alemã, húngara, francesa, inglesa, espanhola, italiana e, claro, a portuguesa. Na infância, o ainda então Duque de Saxe-Coburgo e Gotha teve uma cuidada educação onde as artes, em particular a música e o desenho, desempenharam um papel fundamental. Durante toda a sua vida teve uma grande ligação às artes, enquanto autor, colecionador e mecenas, tendo ficado conhecido como Rei-Artista.
Pouco depois da sua chegada a Portugal, apaixonou-se por Sintra e adquiriu, com a sua fortuna pessoal, o Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, bem como toda a mata que o envolvia. Este mosteiro quinhentista exerceu sobre o rei um enorme fascínio, radicado na sua educação germânica e no imaginário romântico da época que a serra e a valorização estética das ruínas atraíam. O projeto inicial era, apenas, a recuperação do edifício para residência de verão da família real, mas o seu entusiasmo levou-o a decidir-se pela construção de um palácio, prolongando a construção pré-existente, sob a direção do Barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, mineralogista e engenheiro de minas de origem alemã, então residente em Portugal. O edifício é circundado por outras estruturas arquitetónicas que apelam ao imaginário medieval com os caminhos de ronda, torres de vigia, um túnel de acesso e até uma ponte levadiça. O palácio incorpora ainda referências arquitetónicas de influência manuelina e mourisca que produzem um surpreendente cenário “das mil e uma noites”. O Palácio da Pena resultou assim da conjugação do antigo mosteiro jeronimita com um sofisticado edifício oitocentista, que refletia o gosto pelo revivalismo romântico.
Os dois Palácios da Pena
Daqui resultou um edifício com duas alas arquitetónicas bem diferentes, com funções igualmente diferentes: enquanto para o antigo mosteiro, ou Palácio Velho, estavam previstos os quartos dos infantes e infantas, o Palácio Novo acomodaria salas de aparato e os aposentos de suas majestades. Contudo, após a morte inesperada de D. Maria II, em 1853, com apenas 34 anos, D. Fernando passou a habitar o antigo mosteiro, primeiro sozinho e, mais tarde, com a sua segunda mulher, a cantora de ópera Elise Hensler, nobilitada como condessa d’Edla. O Palácio Novo ficou reservado para receções e hóspedes ilustres.
O Parque da Pena
No parque, traduzindo a expressão da estética romântica e aliando a busca do exotismo à impetuosidade da natureza, o rei desenhou caminhos sinuosos que conduzem o visitante à descoberta de locais de referência ou de onde se desfrutam vistas notáveis: a Cruz Alta, o Templo das Colunas, o Alto de Sta. Catarina, a Gruta do Monge, a Fonte dos Passarinhos, a Feteira da Rainha e o Vale dos Lagos. Ao longo dos caminhos, com o seu interesse colecionista, plantou espécies florestais nativas de todos os continentes, que fazem com que os 85 hectares do Parque da Pena se traduzam no mais importante arboreto existente em Portugal. Destacam-se as coleções de camélias asiáticas, introduzidas por D. Fernando II no Parque da Pena na década de 1840 e que se tornaram o ex-libris do inverno sintrense sendo motivo de bailes e festas. O exótico arvoredo enquadra pavilhões e pequenas edificações, compondo um cenário de inigualável beleza natural, mas também de grande relevância histórica e patrimonial.
D. Fernando e a segunda mulher, Elise Hensler, construíram o Chalet da Condessa, situado no lado ocidental do Parque da Pena. É uma construção de dois pisos com forte carga cénica, de inspiração alpina, que mantinha uma expressiva relação visual com o Palácio.
Uma nova geração na Pena
A segunda fase de ocupação da Pena pela Família Real é marcada presença do rei D. Carlos I e da rainha D. Amélia de Orleães, a partir da década de 90 do século XIX.
Estes monarcas irão habitar o palácio durante parte da época de verão, antes de passarem também algum tempo na Cidadela de Cascais. Enquanto os monarcas e os membros da sua corte ficavam alojados no Palácio Velho, os príncipes tinham aposentos no Torreão do Palácio Novo, junto à grande sala de aparato, o Salão Nobre. Após o regicídio, D. Manuel II, em 1908, também passou largas temporadas neste palácio, onde manteve os seus antigos aposentos de infante no piso nobre do Torreão, ainda que utilizando os antigos quartos do pai no piso inferior do claustro do Palácio Velho para funções oficiais.
É no Palácio da Pena que D. Amélia é surpreendida pela Proclamação da República, a 5 de outubro de 1910. Daqui sai para Mafra para se juntar à sogra, D. Maria Pia, e ao filho, D. Manuel, indo embarcar na Ericeira no iate real D. Amélia rumo a Gibraltar.
A Pena na República
O Palácio da Pena foi classificado como Monumento Nacional, em 1910, e é o mais importante polo da Paisagem Cultural de Sintra, classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade desde 1995.
No ano 2000, o Parque da Pena passou a ser administrado pela Parques de Sintra, que, em 2007, recebeu também a gestão do palácio. Em 2012, o Palácio Nacional da Pena passou a integrar a Associação de Residências Reais Europeias.
Ao longo dos anos, a Parques de Sintra tem realizado um trabalho constante de conservação, restauro e revalorização do vasto património que o Parque e o Palácio da Pena englobam, destacando-se o projeto de reconstrução do Chalet da Condessa d’Edla, distinguido, em 2013, com o Prémio União Europeia para o Património Cultural – Europa Nostra, na categoria de Conservação , e o restauro integral do Salão Nobre do Palácio da Pena.
O Parque e Palácio Nacional da Pena faz parte da "Rota Europeia de Jardins Históricos", que integra as "Rotas Culturais do Conselho da Europa" desde 2020.
O programa Rotas Culturais, lançado pelo Conselho da Europa em 1987, demonstra, através de uma viagem no espaço e no tempo, a forma como o património dos diferentes países e culturas da Europa representa um património cultural partilhado. Os Rotas Culturais colocam em prática os valores fundamentais do Conselho da Europa: os direitos humanos, a democracia cultural, a diversidade e identidade cultural, o diálogo, o intercâmbio mútuo e o enriquecimento além fronteiras e séculos. Em 2020, existem 40 Rotas Culturais do Conselho da Europa certificadas (www.coe.int/routes).