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Toccami l'Anima - Notas ao Programa

O cravo: um instrumento ao qual, desde o século XV, está associada uma literatura inesgotável. Bernardo Pasquini usava até o termo “teclar”, mas “tocar” foi desde sempre sinónimo de fazer soar instrumentos musicais de teclas. A alma constitui uma parte física dos instrumentos de corda e é vital para a produção do seu som. “Toca-me a alma” é um programa solístico assente na história do instrumento e desenvolve-se seguindo um fio condutor que vai de um compositor tão antigo como Rocco Rodio até à música de Johann Sebastian Bach, passando pelo génio visionário de Giovanni Maria Trabaci, pela música de Gerolamo Frescobaldi e pela maravilhosa intimidade do seu discípulo Johann Jakob Froberger.

 

O nosso programa inicia-se com o exímio contraponto de Rocco Rodio, compositor de origens incertas, mas plenamente considerado o primeiro grande contrapontista da escola napolitana. O seu livro de Fugas, publicado em Nápoles em 1575, contém cinco fugas e quatro peças de música sacra. Todas as peças estão escritas com partituras, oferecendo assim ao intérprete, quer as peças fossem executadas ao órgão quer noutro instrumento de teclas, como o cravo ou o clavicórdio, uma visão polifónica. Este volume é até hoje considerado como o primeiro livro impresso de música instrumental em partitura. No mesmo género de edição, em 1603, é publicado o primeiro livro de composição para teclado de Giovanni Maria Trabaci, nascido numa pequena aldeia do sul de Itália, de onde desde muito cedo se mudou para Nápoles. Trabaci revela um talento surpreendente na composição de música para instrumentos de teclas, dos quais devia ser um intérprete inigualável. Ao lermos as palavras que ele próprio dirige aos apreciadores da sua música nas advertências aos leitores, ficamos impressionados com a recomendação que aí se faz para que não se aborde de ânimo leve as suas composições, para as quais roga um estudo amadurecido e uma mão delicadíssima; e é curioso que o compositor, depois de explicar ter aplicado toda a sua dedicação na composição das suas consonâncias, procure de imediato culpar os seus leitores do eventual (e facilmente previsível) insucesso naquele estudo.

 

Quem deve ter passado muito tempo no estudo das visionárias composições de Trabaci terão sido, na nossa opinião, Gerolamo Frescobaldi e Bernardo Storace. Se o primeiro é hoje justamente considerado o maior compositor de música para teclado do século XVII e sobre o qual se escreveram rios de tinta, do segundo não se conhecem quaisquer pormenores biográficos, sabendo-se apenas ter sido vice-mestre de capela do Senado da Cidade de Messina em 1664, elemento esse que se infere do frontispício da única recolha de composições que chegou aos nossos dias: a 'Selva di varie composizioni' para címbalo e órgão. A música de Frescobaldi chega-nos acompanhada de um verdadeiro “manual de instruções” a que este dá o nome de “advertências”, ou seja uma série de indicações que encontramos no início de vários livros por ele publicados e que têm por intuito explicar, a quem não tivesse tido a felicidade de ouvir o próprio Frescobaldi a tocar, como executar a sua música. É facto bem conhecido que a fama deste assombroso instrumentista e improvisador se tornara em pouco tempo tão notória, mesmo para além dos Alpes, que começou a atrair uma miríade de alunos interessados em aprender a sua arte. Entre estes encontramos entre 1637 e 1641 Johann Jakob Froberger que, para aprender os segredos de Frescobaldi, se viu obrigado a converter-se à religião católica, abandonando a protestante.

 

Um elemento muito importante quando se considera a contaminação e a evolução dos estilos musicais é o facto de Froberger, uma vez saído de Roma, ter viajado de uma ponta à outra da Europa divulgando por toda a parte aquilo que aprendera em Roma, bem como as suas invenções (é a ele que devemos a invenção da Suite constituída por uma Allemande, uma Courante, uma Sarabanda e uma Giga). Foi ele que influenciou Dietrich Buxtehude, Geor Böhm e Louis Couperin; foi ele que levou os franceses a adotarem uma escrita inovadora para o tempo porque, sem medidas de compasso nem valores das notas próprias, como tocar o instrumento à maneira de Frescobaldi? E foi assim ele que despertou o interesse do jovem Johann Sebastian Bach que, em 1705, fez quatrocentos quilómetros a pé até Lübeck para ouvir Dietrich Buxtehude a tocar. Uma estadia de Bach que durou quatro vezes mais do que o tempo que lhe fora concedido e que permanece ainda hoje um mistério, pois nenhum vestígio dela chegou até nós. Uma visita que transformou o estilo musical do jovem Bach de tal modo que, uma vez regressado a Arnstadt, com quinze semanas de atraso, deixou confusos os seus fiéis de tão irreconhecível que achavam o seu estilo.

 

Marco Mencoboni