Chalet da Condessa D’Edla
A História
O Chalet da Condessa d’Edla foi construído pelo Rei D. Fernando II e sua segunda mulher, Elise Hensler, Condessa d’Edla, entre 1864-1869, na zona ocidental do Parque da Pena, segundo o modelo dos Chalets Alpinos então em voga na Europa.
Localizado no extremo oposto do Parque, face ao Palácio da Pena, o Chalet mantinha com este uma importante relação visual, acentuada pela proximidade de um dramático conjunto de blocos de granito, as Pedras do Chalet, como mostram fotografias da época, hoje obliterada pelo crescimento vegetal.
Foi concebido como uma construção de recreio, de carácter privado, onde o casal se dedicou ao arranjo paisagístico da zona envolvente, criando um novo jardim (Jardim da Condessa).
Após a morte de D. Fernando em 1885, o Parque da Pena e todas as suas construções, incluindo o Palácio e o Chalet, foram deixados em herança à Condessa.
Sob forte pressão pública, este testamento foi contestado pelo filho de D. Fernando, o Rei D. Luís, acabando o Estado por acordar com a Condessa, em 1889, a aquisição destes bens, ficando esta como usufrutuária do Chalet e do Jardim envolvente.
Em 1904, a Condessa renuncia a este usufruto. Após a queda da Monarquia em 1910, o Palácio transita para a tutela do Ministério da Fazenda e o Parque e Chalet para a das Matas Nacionais (Ministério da Agricultura).
Esta gestão separada de um conjunto - Parque e Palácio - concebido com uma unidade notável manter-se-á quase um século, voltando apenas a ser reunida em 2007. Se o Palácio foi sempre visitado, o Chalet, albergou unicamente usos pontuais: sabe-se que o Presidente da Republica Manuel Teixeira Gomes o utilizou em férias de Verão; que foi cedido para colónias de férias; e que albergou alunos de Engenharia Florestal em trabalhos de campo no Parque.
Em 1994, o Conselho de Ministros entregou a tutela do Parque da Pena ao Ministério do Ambiente, que encomendou imediatamente um Plano de Recuperação e Valorização, coordenado pelo Instituto Superior Técnico em colaboração com a Universidade de Aveiro.
Este plano incluiu um minucioso levantamento do Chalet, um projecto para o seu restauro e a colocação de uma cobertura provisória para suster a sua degradação, mas não chegou a ser posto em prática.
Foram porém os levantamentos arquitectónicos e fotográficos realizados para este projecto, que fundamentalmente permitiram a recuperação do Chalet hoje patente ao público.
Em Julho de 1999, na sequência de continuado abandono, o edifício foi alvo de um incêndio de origem alegadamente criminosa, que destruiu o seu interior e coberturas, deixando apenas as paredes de alvenaria de pedra a cal.
Em 2000 foi constituída a sociedade de capitais exclusivamente públicos Parques de Sintra – Monte da Lua, SA (PSML) a quem foi confiada a gestão das principais propriedades do Estado situadas na zona da Paisagem Cultural de Sintra, Património da Humanidade, nomeadamente o Parque da Pena e o Chalet.
Em Agosto de 2007, na sequência de uma bem sucedida candidatura ao fundo EEA-Grants (fundamentalmente financiado pela Noruega) a PSML iniciou a recuperação do Chalet.
Entretanto, através de uma segunda candidatura ao mesmo fundo, o jardim envolvente foi também restaurado, passando o conjunto Chalet e Jardim, até aqui desconhecidos do público, a constituir um inédito e brilhante novo pólo de atracção do Parque da Pena.
O Edifício
O Chalet é um edifício com uma forte carga cénica (segundo o espírito Romântico da época), caracterizado pela marcação horizontal do reboco exterior, pintado a imitar um revestimento em pranchas de madeira, e pelo uso exaustivo da cortiça como elemento decorativo.
A planta térrea é rectangular e a superior tem a forma de cruz.
As paredes do piso superior apoiam-se em arcos atirantados e encastram lajes de pedra de uma varanda a toda a volta. As coberturas, em telha cerâmica com interessante acabamento artesanal, são de duas águas na zona central e de uma água nos quatro cantos inferiores.
No interior, a organização em planta é muito simples: no piso térreo uma escada central, salas principais voltadas ao Palácio e compartimentos de serviço a Poente; no superior, um quarto de dormir mais amplo, virado também ao Palácio, e três compartimentos de apoio.
De novo são as soluções decorativas que merecem destaque: a pintura mural das escadas, do vestíbulo nobre, do tecto do quarto principal e do toilette da Condessa (ou quarto das Rendas), bem como o estuque decorativo da sala (das Heras), o revestimento azulejar azul e branco da cozinha e, sobretudo, os painéis de embutidos de cortiça e madeira que revestiam as paredes e tecto da sala de jantar e do quarto de vestir do Rei.
A estrutura interior de pavimentos, tectos, escadas e paredes divisórias era em madeira e foi destruída pelo incêndio. A qualidade do projecto e construção é reduzida mas a dos acabamentos decorativos muito boa, sabendo-se que os estuques foram da autoria de Domingos Meira e a pintura mural é atribuída a Domingos Freire.
A Intervenção
A recuperação do Chalet da Condessa, na sequência do incêndio que o destruiu parcialmente, assumiu-se desde o início como a reposição de uma perda cultural por acto humano e, portanto, como reconstrução de um imóvel de grande valor cultural (classificado como Imóvel de Interesse Público - Decreto n.º 45/93, DR n.º 280, 30.11.1993) e importância histórica e artística no contexto paisagístico do Parque da Pena, em que a preservação, restauro e reintegração de todos os elementos que puderam ser salvos foi orientada por princípios de rigor histórico e de autenticidade técnica e material, precedida de análises e estudos aprofundados.
O projecto de reconstrução visou devolver o Chalet ao seu estado original, embora corrigindo ou actualizando situações cuja deficiente execução (por exemplo, ausência de drenagens pluviais) assim o exigiu.
O início dos trabalhos deu-se com o levantamento, limpeza e estudo dos escombros, bem como com o registo e selecção de salvados do incêndio, para eventual reintegração ou reprodução, e foram consolidadas as superfícies decorativas remanescentes. Simultaneamente, foi desenvolvido um minucioso modelo tridimensional em software CAD, reproduzindo todos os elementos e o sistema construtivo original, que apoiou o projecto de reconstrução/restauro.
Na primeira fase do projecto (objecto do financiamento), concluiu-se a reconstrução até à fase de toscos – paredes, pavimentos, coberturas, vãos e varanda – incluindo a consolidação estrutural e a instalação de infra-estruturas de saneamento, energia, aquecimento, comunicações e segurança (integradas nos sistemas gerais do Parque subsidiados pelo PIT).
Esta primeira parte incluiu a recuperação total dos paramentos exteriores, nomeadamente dos rebocos pintados a fingir tábuas de madeira (em que foi preservada uma parte cuja cor ocre foi alterada pela temperatura do incêndio) e dos elementos decorativos revestidos a cortiça. A energia e água potável foram conduzidas através do Parque para alimentar a zona do Chalet e, no exterior, foi instalado um reservatório para a rede de combate a incêndios e o abastecimento de água das minas às instalações sanitárias.
Segue-se a fase de pinturas de madeiras e acabamento das superfícies interiores, com o restauro e reintegração de elementos salvos. De salientar também a recuperação do portão e da Casa do Guarda do Chalet (acolhimento de visitantes e interpretação ambiental), com financiamento do Programa Operacional do Ambiente, nas traseiras da qual será construída uma cafetaria e instalações sanitárias para apoio a toda a zona.
Jardim da Condessa D’Edla e Quinta da Pena
A História
Entre 1864-1869, D. Fernando II e a sua segunda mulher, Elise Hensler, Condessa d’Edla, desenvolveram, na designada Tapada da Vigia, uma forte intervenção paisagista de expansão do Parque da Pena, criando, numa área com cerca de 8 hectares dois novos espaços de elevado valor patrimonial e artístico: o Jardim da Condessa d’Edla, que envolve o Chalet, e a Quinta da Pena, entre o vale dos Lagos e o Chalet. Da Quinta da Pena já existiam, pelo menos, a Abegoria e o Aviário, mas datam da construção do Jardim as estufas e algumas casas de apoio a actividades agrícolas.
Influenciados pelo espírito coleccionista da época, D. Fernando II e a Condessa d’Edla, reuniram nestas áreas do Parque da Pena espécies botânicas provenientes dos quatro cantos do mundo, de que são especial exemplo os fetos arbóreos da Austrália e Nova Zelândia, cuidadosamente introduzidas de modo a criar um cenário romântico repleto de dramatismo. A aquisição de plantas inicia-se por volta de 1866, com grande envolvimento da Condessa.
Em 1885, D. Fernando torna a Condessa d’Edla herdeira de todos os seus bens, nomeadamente do Palácio e Parque da Pena, incluindo o Chalet e o Jardim “para que esta continue a sua obra”. Sob forte pressão pública, este testamento foi contestado pelo filho de D. Fernando, o Rei D. Luís, acabando o Estado por acordar com a Condessa, em 1889, a aquisição destes bens ficando esta como usufrutuária do Chalet e Jardim envolvente.
Em 1904, a Condessa renuncia a este usufruto e retira-se definitivamente do seu Jardim e Chalet.
Após a queda da Monarquia em 1910, o Palácio transita para a tutela do Ministério da Fazenda e o Parque e Chalet para a das Matas Nacionais (Ministério da Agricultura).
Na segunda metade do século XX, a falta de manutenção do Parque da Pena foi responsável pela sua grande degradação, de tal modo que, em 1994, o Conselho de Ministros, entregou a sua tutela ao Ministério do Ambiente, que imediatamente encomendou um Plano de Recuperação e Valorização, coordenado pelo Instituto Superior Técnico em colaboração com a Universidade de Aveiro.
Este plano não chegou a ser posto em prática.
Em 2000 foi constituída a sociedade de capitais exclusivamente públicos Parques de Sintra – Monte da Lua, SA (PSML) a quem foi confiada a gestão das principais propriedades do Estado situadas na zona da Paisagem Cultural de Sintra, Património da Humanidade, nomeadamente o Parque da Pena.
Na sequência de uma bem sucedida candidatura ao fundo EEA-Grants (fundamentalmente financiado pela Noruega) a PSML iniciou, em 2007, a recuperação do Chalet e, em 2008, através de uma nova candidatura, o restauro do Jardim da Condessa d’Edla e da Quinta da Pena.
O Jardim
O Chalet da Condessa d’Edla e o Jardim que o enquadra num cenário de inspiração alpina, foram idealizados e construídos como um local de veraneio reservado, quase refúgio para uma nova vida do Rei mais afastada da corte. A escolha do local é em si genial: afastado, mas mantendo uma expressiva relação visual com o Palácio, hoje parcialmente perdida pelo crescimento das árvores que plantou.
Por outro lado, situa-se junto a um dos elementos mais marcantes e dramáticos na composição do Jardim, as Pedras do Chalet, e sobranceiro a uma linha de água que permitiu construir um dos locais mais exóticos do Jardim: a Feteira da Condessa.
O Jardim compõe-se de uma zona formal, de enquadramento do Chalet, em que se destacam o Jardim da Joina, o Caramanchão e os lagos asfaltados. Nesta zona surgem colecções de camélias, rododendros e azáleas.
Adjacente a esta unidade, os blocos de granito, que conferem um cenário dramático ao Jardim, foram valorizados por uma composição paisagista que, através da construção de caminhos e bancos permitiam tirar partido da sua grande altura para fruir de vistas para o Palácio, Chalet e Castelo dos Mouros. O vale situado a Nascente, foi utilizado para a criação de uma feteira (a Feteira da Condessa), para cuja plantação foram importados fetos de várias espécies, em especial fetos arbóreos que, bem adaptados ao microclima local, atingem hoje dimensões notáveis. Este microclima deve-se à construção de uma linha de água asfaltada, interrompida por uma complexa sucessão de tanques e cascatas, que conduzem águas de minas e superficiais, provenientes da drenagem de caminhos.
A circulação da água no Jardim permitia a sua animação e frescura, bem como a distribuição de água para a rega dos canteiros na época estival.
Adjacente ao Jardim, existem as estruturas da Quinta da Pena, que compõem um sistema produtivo ornamentado ao estilo de uma Ferme Ornée, permitindo aliar as funções de produção agrícola com o usufruto para lazer, funcionando os animais da Quinta e os edifícios de apoio, como elementos de composição de um cenário e ambiência pitorescos.
As funções da Quinta da Pena, foram progressivamente abandonadas no século XX, permitindo o crescimento de vegetação infestante que a descaracterizou.
A Intervenção
Para a recuperação do Jardim da Condessa e da Quinta da Pena, a PSML reuniu uma equipa técnica multidisciplinar apoiada por vários consultores externos e empresas especializadas.
A abordagem metodológica adoptada ao longo do projecto de restauro valorizou aspectos históricos, ecológicos, botânicos, estéticos e funcionais, de acordo com as recomendações das cartas internacionais para o restauro, protecção e valorização do património.
Os trabalhos de preparação envolveram a caracterização dos solos, a limpeza da vegetação, que se desenvolvera desregradamente, a execução de levantamentos topográficos rigorosos e o mapeamento e classificação botânica de toda a vegetação existente. A inventariação dos elementos de composição do Jardim foi acompanhada por uma pesquisa histórica aprofundada, por sondagens arqueológicas e pela identificação e compreensão do antigo sistema de captação e distribuição de águas, bem como pelo registo e avaliação do estado de conservação dos elementos construídos, incluindo a análise das argamassas neles utilizadas. Todos os dados recolhidos foram integrados num sistema de informação geográfica que apoiou os projectos de recuperação e permitiu o registo de todas as intervenções realizadas.
Nestas intervenções de recuperação salientam-se: a do sistema original de captação, distribuição e armazenamento de águas (que envolveu pôr a descoberto lagos, canais e condutas); a da rede de caminhos com a reposição de pavimentos originais (calçada irregular de granito, saibro e macadame de granito); e o restauro dos elementos construídos (casas de jardineiro, muros, pontes, pérgola, aviário, etc). Sob os caminhos principais foram instaladas infra-estruturas para água potável e para rega, energia e comunicações, permitindo instalar no Jardim e Quinta um sistema de rega automatizado.
Na valorização da colecção botânica existente, para eliminar situações de risco de queda de árvores recorreu-se a técnicas de arboricultura (podas e abates de árvores). Para permitir requalificar a colecção botânica removeram-se as espécies infestantes, nomeadamente acácias e pitosporos. Por fim, e após uma aprofundada pesquisa histórica sobre espécies introduzidas no Parque da Pena por D. Fernando II e pela Condessa d’Edla, procedeu-se à plantação de mais de 8.000 plantas, que integraram as colecções de rododendros, azáleas, begónias, fetos arbóreos, camélias e outras espécies existentes.
Todas as intervenções de restauro restituíram no Jardim e Quinta o seu carácter romântico e permitiram a sua abertura ao público.




